Tecnofagia não é uma tendência, nem um movimento, mas uma conceituação pessoal, elaborada para dar conta de operações marcantes na produção brasileira relacionada à artemídia.

Nela chamam a atenção a ênfase nos processo de combinação entre a tradição e a inovação, os arranjos inusitados entre saberes imemoriais de última geração e a revalidação das noções de high e low tech. Em uma frase, tecnofagia é o encontro entre a ciência de ponta e a ciência de garagem.

Essa abordagem esboça uma estética que opera pela combinação e remodelagem de equipamentos e produção de dispositivos capazes de agenciar outras formas de criação e ações micropolíticas de apropriação das tecnologias.

Mas essas relações não confluem nunca para uma definição estável. Ela é dinâmica, mutante, fruto de estratégias e metodologias temporárias e inesperadas que respondem à era do poder (cracia) mutante e transitório – ad hoc (aqui e agora). Pertence, portanto, ao âmbito da adhocracia.

Mais um roteiro que uma organização, um estado de espírito poroso que permeia tudo, uma nova receita do conhecimento remixada, um novo marco para a convivência entre disciplinas, como afirma Bernardo Gutierrez (2012), a adhocracia está no vértice e no vórtice dos processos de criação dos artistas aqui reunidos.

Eles e elas são todos brasileiros. Inclusive Rafael Marchetti, argentino, criado em parte no Uruguai, que aqui reside e trabalha há um bom tempo.

É que são todos radicantes, conceituação que Nicolas Bourriaud importou da biologia para caracterizar a estética da globalização. Radicante “designa um organismo capaz de fazer brotar suas raízes e de agregá-las à medida que vai avançando”. Como as heras. Como esses artistas que produzem suas raízes no processo de seu deslocamento. (Bourriaud 2011, 20; 50)

Há um pouco e muito de Brasil nisso tudo. Porque só a brasilidade nos desune. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Remixo, explicitamente, Oswald de Andrade e o Manifesto Antropofágico. Vários interlocutores associam-no à ideia de Tecnofagia, central nesta exposição. Em alguns sentidos essas associações são pertinentes. Mas no que diz respeito às formas como os artistas aqui reunidos definem sua relação com Brasil, ela (a ideia de Tecnofagia) se revela mais próxima de Mário de Andrade e sua ideia de sermos trezentos, sermos trezentos-e-cincoenta.

A multiplicidade de visões e relações com o Brasil definidas pelos artistas que participaram da III Mostra 3M de Arte Digital multiplicam exponencialmente essa bela equação de um de nossos artistas-intelectuais mais polivalentes. São visões e percepções que variam quase na mesma proporção em que pululam, a cada jogo, novos técnicos de nossa seleção de futebol, conforme se pode constatar em suas páginas pessoais no catálogo da mostra.

A “Alegria é a prova dos nove”, como já nos ensinava Oswald de Andrade, nos idos de 1928, no famoso Manifesto Antropofágico. Método artesanal de verificação de contas, quando as calculadoras não eram comuns, significa achar o resto da divisão de um número pelo nove. Basta somar os algarismos e tirar do resultado o maior múltiplo de nove nele contido.

Aqui o resultado dessa regra, popularmente chamada de “noves fora”, é sete, o número da criação. Afinal, esta é uma exposição de artistas que devoram as tecnologias e as mídias para triturá-las e devolvê-las ao coletivo como propostas estéticas que permitam leituras plurais da contemporaneidade. Tecnofágicas, adhocráticas  e radicantes.

Giselle Beiguelman
Curadora da III Mostra 3M de Arte Digital
2012

Referências:

Andrade, Mário de. “Eu sou trezentos.” In Poesias completas,  edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. São Paulo: EDUSP/ Belo Horizonte: Itatiaia, 1987, p. 211.
Andrade, Oswald de. “Manifesto Antropófago.” In: A utopia antropofágica. 3a ed., São Paulo: Editora Globo, 2001, p. 47-52.
Bourriaud, Nicolas. Radicante: por uma estética da globalização. Trad. Dorothée de Bruchard. São Paulo: Martins Martins Fontes, 2011.
Gutierrez, Bernardo. “A era adhocrata .” seLecT, agosto/setembro 2012: 48-49.

Álbum: http://flic.kr/s/aHsjCfncAj