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Antologia de Fragmentos Dispersos Anthology of Spread Fragments

Sobre essa Antologia de Fragmentos Dispersos
 

Marcus Bastos, crítico, artista e meu amigo, diz que esta exposição retrospectiva deveria se chamar “Mapa Incompleto de Deslocamentos em Curso”. Talvez ele tenha razão. É mais uma mostra prospectiva do que de balanço ou conclusão.

Os projetos nela reunidos (Wop Art (2001), Poétrica (2003-04), desmemórias (2005), De Vez em Quando (2006) e os inéditos fast/slow_scapes e leds are electronic eyes indicam alguns rumos, mas não consolidam pontos de chegada.

O recorte estabelecido pelos curadores, Lucas Bambozzi, Marcos Boffa e Rodrigo Minelli, privilegiou vetores capazes de desenhar um diagrama instável que discute uma emergente estética da transmissão.

Pautados por experiências que procuram corromper os limites dos espaços da arte, da informação e da comunicação, explorando contextos cíbridos (entre redes on e off line) os projetos aqui reunidos interrogam: Como pensar uma forma de arte que se dê a ler “in between”, entre atos e interfaces diversos e simultâneos, mas não sincrônicos? 

Wop Art foi o gesto inaugural dessa reflexão e apresentava ao leitor uma situação imponderável: arte ótica (op art) acessível via Internet móvel em celulares. Pode-se dizer que a situação era imponderável não pela rudimentaridade do meio na época, meados de 2001, mas pela incompatibilidade entre o que se dava a ler e seu contexto de leitura.

Isso porque a Op Art remete a uma forma de virtualização dependente do grau de concentração e introspecção do leitor, mas imagens concebidas para dispositivos móveis já não dizem respeito à contemplação. São feitas para serem vistas no trânsito, em estado de dispersão, de acordo com uma lógica da aceleração que inviabiliza a introspecção.

Não se tratava, portanto, de tentar adequar a Op Art aos celulares, criar uma série ótica que pudesse funcionar como um “tamagoshi” destinado a um público erudito, fetichizando o aparelho e contradizendo o objeto, mas sim propor uma situação irônica em que o atrito entre conteúdo e condições de recepção soasse como uma provocação para enfrentar a novidade de um outro estatuto de fruição da arte em ambientes entrópicos.

Arte para não ser vista como arte, confundindo-se com os dispositivos de comunicação e se dando a ler entrecortada por inúmeros outros inputs, relações que foram intensamente em Póetrica.

Projeto que começou em São Paulo e terminou em Berlim, realizado entre outubro de 2003 e abril de 2004, Poétrica envolveu uma série de poemas visuais compostos por mim com famílias tipográficas não-fonéticas e uma teleintervenção urbana mediada por criações feitas pelo público com esse mesmo repertório tipográfico.

Na etapa realizada em São Paulo, as imagens eram produzidas em qualquer lugar, via SMS, Internet fixa e móvel e disponibilizadas em painéis eletrônicos situados na mancha urbana da Galeria Vermelho, nas avenidas Paulista, Consolação e Rebouças.

Essas imagens eram, também, retransmitidas on line por webcams e replicadas em diferentes dispositivos (celulares, Palms, computadores) e, em alguns casos, em ploters e outros sistemas de impressão digital.

Redimensionadas e salvas como algo novo, as imagens de Poétrica, produzidas pelo público interator ou por mim, eram sempre compostas da mesma informação, porém desprovidas de ligação com um suporte específico, resultando, assim, em significados visuais independentes de sua textualidade e desvinculados do seu lugar de produção e veiculação.

Em Berlim, o projeto integrou a exposição p0es1s1 e foi exposto no Kulturforum e no espaço público. No museu, Poétrica consistia de uma série de impressões em grande formato, projeção de DVD um web site.

No espaço público, ocupou o painel eletrônico da Kurfürstendamm e foi apresentado nos cinemas no formato de trailers, anunciando P0es1s por meio da série "ad_oetries" (ads + poetry)2 concebida especialmente para esta ocasião a convite de Friedrich Block, curador de P0es1s.

Poétrica, nesse sentido, ressaltava a lógica da clonagem que permeia a criação digital Apesar de serem idênticas no formato e conteúdo informacional, as mensagens produzidas no âmbito de Poétrica não o são no que diz respeito à fruição e legibilidade, evidenciando o mais fascinante aspecto da lógica do clone. A sua capacidade de ser idêntico sendo diferente.

Tudo que se criava, era visto e lido de forma completamente distinta, de acordo com seu contexto recepção (museu, galeria, painel eletrônico, web ou cinema) isso não é conseqüência do tamanho da tela, ou do tipo de superfície a que as imagens e textos momentaneamente aderiam. É resultante de um fenômeno estético particular dessa escritura nômade que, por ser clonável e deslinkada do suporte, engendra o original de segunda-geração (conforme definiu Lunenfeld) e desmaterializa a mídia para fazer a interface se realizar como mensagem.

Fenômeno intrínseco à dinâmica da estética da transmissão, traz um espectro de novas variáveis no processo de criação e recepção que obriga a pensar em estratégias que nos permitam tornar-se cúmplice da máquina e ceder à lógica das parcerias que jogam com a alteridade de papéis de criador e criatura, enfrentando as ambivalências entre o visível e o invisível, o lugar do código e o lugar da imagem.

E foi justamente essa linha de inquietações que estabeleceu a pauta de ação de uma “trilogia” De Vez em Sempre, De Vez em Nunca, ambos criados em 20053, e De Vez em Quando (2006)4, que faz parte desta mostra.

Em De Vez em Quando uma situação de estagnação é definida como ponto de partida. Imagens gravadas por mim, de dentro do carro, com meu celular, são disponibilizadas para serem desconstruídas pelo público, utilizando apenas o mouse. Quanto mais se move o mouse, mais os quadros da seqüência do vídeo original se diluem. O programa desenvolvido para o projeto transforma o mouse em um imã, que leva as imagens aos pontos que o cursor desenha na tela. Nada se apaga e tudo se acumula, resultando em composições enigmáticas que ora trazem à tona um momento fugidio do dia, ora apagam, deletam, sucateiam tudo que lhes é anterior.

No meio disso tudo, ficou desmemórias, um webclip interativo que explora o estranho paradoxo dos espaços cíbridos que são construídos de memória, mas nos quais o que prevalece é uma arquitetura do esquecimento.

desmemórias trata dos não-vestígios de nosso passado recente. Uma história feita de hiatos, pontuada máquinas de visão e comunicação que moldaram o presente e desapareceram. Computadores Amiga, Mac Classics, Ataris, disquetes de 5 e ¼, 486s, 386s, XTs, celulares de 500g, monitores de fósforo, antigos seriados e “reclames” de TV, são os personagens desse quase-documentário de memórias decompostas, em que se cruzam refugos midáticos, lixo tecnológico e afetos eletrônicos.

Benjamin, olhando Paris no século 19, se perguntava, se é a modernidade nossa antiguidade. Nos anos 1960, Robert Smithson redirecionaria a questão lembrando que “ao invés de nos lembrar do passado, os novos monumentos parecem fazer-nos esquecer do futuro”. desmemórias parte dessas matrizes.

As imagens passam em ritmo acelerado e são, propositalmente, trabalhadas no limite de seu apagamento, cruzando-se e superpondo-se com scripts algorítmicos que confundem os limites entre textos e imagens, enquanto trilhas sonoras de diversas épocas embaçam a racionalidade cronológica, intoxicando-nos com o delírio do presente permanente de nossas ruínas midiáticas.

Ruínas que vão nos atropelando e nos condicionando a espaços móveis, como carros trens, ônibus e táxis, sempre grudados a um terceiro olho ciborgue da câmera de celular. Passo tanto tempo em trânsito e pensando em situações de trânsito que quando penso na minha série de fast/slow_scapes, eles (os filmes que produzo) me parecem inevitáveis.

Gravados sempre de dentro de um veículo (carros, táxis, barcos, trens e ônibus), com diferentes modelos de celular, em São Paulo, BH, Rio de Janeiro, Berlim, Nova York e na Grécia, são um conjunto de enquadramentos insólitos e pontos de vista, particulares à situação de nomadismo contínuo, que aparecem emparedados, como se fossem “stills on the move”, desconexos e artificialmente realinhados (apesar de não o serem).

Por fim, ou sabe-se lá em que ponto, entrou, nessa antologia de fragmentos dispersos, o vlog que venho fazendo de forma muito intermitente, leds are electronic eyes, uma série de vídeos gravados e editados em telefones celulares focando apenas leds.

Um diário de imagens que revela os olhos eletrônicos das máquinas, sem procurar humanizá-las, mas atentando para seus estranhos sinais de vida e natureza. Sinais fugidios, cuja fotogenia particular parece ser o micromínimo denominador comum das experiências que compõe o mapa incompleto de deslocamentos em curso desta mostra. 

Giselle Beiguelman

Setembro, 2006