Na minha coluna Ouvir Imagens de 2/4, contei sobre minha visita à exposição Esculturas para Ouvir no Mube, Museu Brasileiro da Escultura. Com curadoria de Cauê Alves, a mostra reúne trabalhos de artistas de diferentes gerações que combinam o som a outras formas de expressão. Há obras de Leon Ferrari, Amelia Toledo, Paulo Bruscky, Cinthia Marcelle,  Paulo Nenflídio, Vivian Caccuri, da dupla Leandro Lima e Gisela Motta, além de coletivos como o Grivo e Chelpa Ferro.

Todas as obras ficam na fronteira entre o instrumento musical e as artes visuais e desafiam o público a usar vários sentidos. Nem todas são interativas ou “tocáveis”. Algumas comportam-se de maneira autônoma, como é o caso das instalações de Vivian Caccuri e de Leandro Lima e Gisela Motta.

Caccuri apresenta um de seus Automotivos, uma obra composta por um par de subwoofers, desses que geralmente são usados em porta-malas de carros, e um conjunto de dados e búzios  (no destaque desta página). Conforme a música toca, as caixas acústicas vibram e a sorte é lançada. A playlist é programada para tocar quatro músicas por hora e toca exclusivamente cumbia, funk carioca, tecnobrega, entre outros gêneros desses soundsystems. Assista o vídeo aqui.

A artista, aliás faz uma performance inédita neste fim de semana, no dia 7/4, na Bienal do Mercosul, em Porto Alegre. Impróprio, que ela descreve como um “ritual de sacrifício de soundsystems abandonados”. Contrapondo-se aos mecanismos de destruição desses equipamentos, que vem sendo realizada por várias prefeituras, ela propõe um ato criativo: uma grande escultura de cacos, com os restos desses equipamentos, acompanhada por carros de som.

Já Leandro e Gisela participam da exposição com uma grande obra instalativa: Órgão. Essa peça é muito interessante não só pelo rigor tecnológico e estético, que já é uma marca registrada desses dois artistas, mas pela sua atualidade. Concebida para a Mostra 3M de Arte, e feita com 35 escapamentos, é expressão de um desejo e também uma proposta para o futuro das cidades. Uma cidade sem carros. A obra ocupa a área externa do Mube.

Leandro Lima e Gisela Motta, Órgão (2017).

Outro destaque da mostra fica por conta das obras de Paulo Nenflídio, um nome referencial na arte contemporânea na pesquisa das artes visuais nas suas intersecções com o som e a tridimensionalidade. Seus instrumentos combinam de forma muito particular tecnologias de várias formatos com elementos do cotidiano.

Em Decabráquido Radiofônico, por exemplo, ele nos oferece um intrigante objeto com 10 braços com falantes e um teclado com 10 teclas. Quando tocadas acionam o som de 10 rádios independentes um do outro. E o resultado é uma polifonia produzida pela rádios locais, uma obra que retoma princípios do genial John Cage e os revista num instrumento que é controlado pelo público.

Decabraquido Radiofonico

Paulo Nenflídio, Decabráquido Radiofônico (2006)

Leia o texto do curador e saiba quem são os artistas participantes: folder | esculturas para ouvir

A exposição fica em cartaz no Museu Brasileiro da Escultura até 15/4.
Rua Alemanha, 221 – Jardim Europa, São Paulo – SP. Funcionamento: terça a domingo, 10h às 18h.

Links:

Leandro Lima e Gisela Motta – Órgão

Vivian Caccuri – Automotivo I

Paulo Nenflídio – Decabráquido Radiofônico

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