Na minha coluna no portal Dissenso, parti do julgamento da chapa Dilma-Temer pelo STF para discutir novas formas de resistência que emergem no contexto das redes. Falo dos movimentos sociais que se articulam temporariamente nas redes e nas ruas com capacidade de fazer pressão e de ocupar politicamente as cidades a partir do seu espectro informacional. Em um frase, proponho que pensemos em em Smart Citizens e não em Smart Cities.

Recordo uma intervenção expontânea ocorrida na fachada interativa do WZ Hotel em São Paulo, fruto de uma reforma feita pelo Estúdio Guto Requena. Apesar de ser um projeto que acumula alguns prêmios internacionais, não é pelos seus méritos projetuais que chamo a atenção para esse caso, mas sim pela forma como foi apropriado pelo público, no contexto que antecedeu o impeachment da Presidente Dilma.

Localizado em uma avenida de tráfego intenso, o prédio funciona como um farol indicador dos níveis de poluição de São Paulo. Isso porque a fachada do WZ Hotel foi equipada com chapas metálicas, luzes, softwares e sensores. Esses sensores foram programados para interpretar a qualidade do ar e fazem com que as cores das luzes se alterem em resposta a essas condições. As tonalidades mais quentes, como vermelho e laranja, indicam maior grau de poluição.

Já a predominância de cores frias, como azul e verde, indica que qualidade do ar local é boa. Um aplicativo para celular permite que as informações cromáticas sejam interpretadas pelos passantes, que podem “tingir” o edifício, utilizando comando de voz e associando uma cor às suas próprias ondas sonoras.

Esse último recurso revelou seu potencial de uso crítico e criativo em uma ação não prevista por Requena no dia 20 de agosto de 2015, quando ocorreram as manifestações em defesa dos direitos sociais e em resposta às que pediam o impeachment da presidente Dilma Rousseff alguns dias antes.

A fachada do WZ Hotel transformou-se, nessa noite, no palco de uma verdadeira batalha de luzes, disputando a ocupação dos territórios simbólicos da cidade.

Da janela de um apartamento iniciou-se a movimentação de tingir o prédio de vermelho, cor que, como sabemos, simboliza o Partido dos Trabalhadores, a qual ela pertence. Poucos minutos depois, de outra janela próxima, ele era “pintada” de azul, cor que representa o partido de seu opositor nas eleições, Aécio Neves, do PSDB. Anonimamente, a fachada convertia-se em plataforma de debate, dentro de um jogo de apropriações que fazia aparecerem os novos espaços urbanos: os territórios informacionais.

Esse projeto de Requena, e especialmente esse tipo de ocorrência não prevista indica uma transformação essencial no modo de pensar a relação das tecnologias com as cidades, que passam a ter de explorar as dimensões arquitetônicas de ambientes ricos em dados. A arquitetura passa a ser problematizada como lugar espaço a ser ocupado a partir de instâncias provisórias e de exercício de outras formas de cidadania. Mais do que estrutura por onde passam redes cabeadas, a arquitetura se converte em interface e plataforma de ação dos espaços urbanos.

Se, ao longo dos anos 1990, os especialistas discutiam como apropriar-se das redes para tornar a cidade mais interativa, hoje, com a capilarização da tecnologia no tecido social, a aposta é em como utilizá-las para interferir no cotidiano das cidades e torná-las mais participativas.

Isso aponta para reinvenção das formas de ocupar as ruas e as próprias noções de política urbana, fazendo com que a ideia de cidades inteligentes se confunda com noções de inteligência distribuída, expandidas e não controladas por tecnologias corporativas.

Nesse contexto, as perguntas são: Como explorar relações arquitetônicas com ambientes ricos em dados? Como operar a mediação dos dados para novos formatos de exercício da cidadania e compreensão do espaço público? Desse ponto em diante, estamos falando de smart citizens e na sua relevância para confrontar o mundo opaco e carcomido de Brasília of Cards.

*Foto: Vitor Araújo.