A aula de hoje tem como base a discussão do artigo de André Lemos “Mobile communication and new sense of places: a critique of spatialization in cyberculture”. Revista Galáxia, São Paulo, n. 16, p. 91-108, dez. 2008.
Recomendo, como texto complementar, a leitura de Mapas Além-Google, uma entrevista que fiz com esse autor, a respeito de seu projeto SUR-VIV-ALL, a navegação em GeoPLAY, de Rafeal Marchetti e a série Homage to Minimal Information, que venho desenvolvendo.
Naquele Império, a arte da Cartografia atingiu uma tal perfeição que o mapa duma só província ocupava toda uma cidade, e o mapa do Império, toda uma província. Com o tempo, esses mapas desmedidos não satisfizeram, e os colégios de cartógrafos levantaram um mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia ponto por ponto com ele. Menos apegadas ao estudo da Cartografia, as gerações seguintes entenderam que esse extenso mapa era inútil e não sem impiedade o entregaram às inclemências do Sol e dos invernos. Nos desertos do Oeste subsistem despedaçadas ruínas do mapa, habitadas por animais e por mendigos. Em todo país não resta outra relíquia das disciplinas geográficas.(Suárez Miranda, “Viagens de Varões Prudentes’’, livro quarto, cap. XIV, 1658).
Nesse minúsculo conto, Borges escreveu:
“Naquele Império, a arte da Cartografia atingiu uma tal perfeição que o mapa duma só província ocupava toda uma cidade, e o mapa do Império, toda uma província. Com o tempo, esses mapas desmedidos não satisfizeram, e os colégios de cartógrafos levantaram um mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia ponto por ponto com ele. Menos apegadas ao estudo da Cartografia, as gerações seguintes entenderam que esse extenso mapa era inútil e não sem impiedade o entregaram às inclemências do Sol e dos invernos. Nos desertos do Oeste subsistem despedaçadas ruínas do mapa, habitadas por animais e por mendigos. Em todo país não resta outra relíquia das disciplinas geográficas (Suárez Miranda, “Viagens de Varões Prudentes’’, livro quarto, cap. XIV, 1658)’’.
Territorialização – Localização Muda Tudo…
[O texto que segue é um extrato de um logo ensaio Território e Agenciamento nas Redes: Em Busca da Ana Karenina da Era da Mobilidade, a ser publicado em Nomadismos Tecnológicos (Beiguelman, G. e La Ferla, J. orgs., Barcelona, Ariel, no prelo)]
O rápido crescimento da penetração dos celulares (que já atingem 61% da população mundial), o aumento do uso dos celulares para aplicações de dados (SMS, MMS, m-commerce etc.) e a expansão dos serviços de acesso à Internet com cartões das operadoras mostram que nos próximos anos a diferença entre países desenvolvidos e em desenvolvimento deve diminuir e que o acesso à Internet banda larga deverá ser móvel.[i]
Diante desses números e prognósticos, não é de estranhar que grandes empresas de análise de tendências de mercado e de investimentos, como a Morgan Stanley[ii], apostem todas as suas fichas na Internet móvel, animando a publicidade e o marketing a direcionar para as microtelas suas expectativas de ganho e lucro. Não se trata apenas de números – impressionantes, diga-se – de potenciais consumidores de aparelhos de telefonia celular ou de novos dispositivos portáteis de conexão à Internet. Estamos falando de equipamentos que se definem pela integração entre redes de acesso à Internet em alta velocidade (tecnologias 3G), transmissão e recepção de vídeo, uso de VOIP e participação em redes sociais. Tudo isso combinado a serviços relacionados a mídias locativas.
É justamente essa combinatória o que torna a navegação na Internet de linhas fixas e no celular tão diferentes e o que explica animação dos publicitários com a cultura da mobilidade. A partir de programas instalados no aparelho, feitos para facilitar e aperfeiçoar a vida de seus usuários, não apenas é possível saber onde o portador do dispositivo está, mas ter essa informação compartilhada e combinada a bancos de dados e apontando para o que está em sua vizinhança.
Em termos publicitários objetivos, isso permitirá que um consumidor, portador de um celular inteligente (ou seja, 3G, com acesso a Internet, GPS etc.), cadastrado em redes sociais como Facebook e afins, onde tem arquivados vários de seus gostos e hábitos, ao passar na frente de uma loja, receba no seu celular um cupom digital de desconto. Dito de forma simples e clara: “localização muda tudo”.[iii] Nesse contexto, as microtelas urbanas passam a comportar-se como extensões conectadas do nosso corpo no espaço físico e inserem novas variáveis nos sistemas de invasão da privacidade e rastreamento.
Não são só os métodos de rastreamento e fomento ao consumo que mudam com isso. Muda também nossa relação com o as marcas que passam a constituir camadas de nossa subjetividade, transformando-nos em “fansumidores”[iv] felizes de marcas e sua capacidade de satisfazer desejos que sequer havíamos desejado. O processo de “brandificação” do cotidiano e das relações pessoais opera aí de maneira perversa, por meio da introjeção de valores corporativos que se sobrepõem e confundem-se com valores sociais. Nesse contexto, passamos a nos relacionar via o imaginário das marcas, que se convertem no “alfabeto” das nossas identidades: “Você é uma pessoa Mac ou uma pessoa PC? Quem você está vestindo? O que está na sua lista do Netflix”?[v]
Esse “estado de espírito” é o resultado de operações de marketing que agem pela domesticação dos sentidos. Isso acontece em resposta às transformações econômicas do século 21, marcadas pelo enorme crescimento do consumo, por um lado, e o aumento de produtos similares do ponto de vista técnico e funcional, por outro. Essas transformações implodem a lógica de diferenciação das marcas por nomes e rótulos e levam os formatos tradicionais da comunicação publicitária, destinados a audiências de massa, a ceder lugar a “guerras estéticas” em busca de “nanoaudiências” segmentadas. O alvo agora é a conquista das subjetividades, por meio da “colonização da percepção”, procurando “formar valores que nortearão as opções e ações dos consumidores”.[vi]
Adentramos a era da publicidade criativa, em que não se trata mais de alardear propriedades únicas e objetivas dos produtos. O que importa é comunicar uma “personalidade de marca”. “A sedução publicitária mudou de registro, agora investe-se do look personalizado – é preciso humanizar a marca, dar-lhe uma alma, psicologizá-la.”[vii] E é essa humanização que garante o sucesso da colonização da percepção.
A operação de conquista se impõe como um engenhoso aparelho de captura e aparece com nitidez no modo pelo qual as corporações vem transformando palavras de ordem da contracultura em slogans publicitários e bandeiras de suas “causas”. Como destacou Tatiana Bazichelli, isso faz com que uma das questões políticas e culturais mais profundas hoje seja uma “batalha de linguagem” que se reflete na absorção do vocabulário que definia a ética hacker dos anos 1990 – Do It Yourself, compartilhamento e redes sociais, por exemplo – ao discurso dos expoentes do mundo de negócios da web 2.0. [viii]
Difícil, nessa conjuntura, não concordar com Richard Sennett quando afirma que a principal conseqüência do capitalismo contemporâneo é a corrosão do caráter.[ix] Afinal, a eficiência desse processo de colonização da percepção depende da absorção do discurso de marketing – os antigos códigos da ética hacker — como valores de consumo. Basta ler as tradicionais apresentações “Sobre Nós” do YouTube, Flickr e Facebook para constatar que isso já foi feito. Repetem-se, como mantras, cada um com seus acordes próprios, as idéias de uma comunidade para todos, o espaço aberto, a cultura grátis, o compromisso com o compartilhamento e a conexão entre as pessoas. Como afirma Douglas Rushkoff, “o open-source é aí reinterpretado como ‘crowd- sourcing’, ou seja, apenas uma outra maneira de pegar pessoas para fazer trabalhos em troca de nenhuma compensação”.[x]
É o acesso a esse manancial de contatos e conexões que particulariza a nova geração de celulares smartphones, como os I-phones da Apple, a linha N da Nokia e os Blackberry da RIM. Por meio desses dispositivos, como anunciam as diferentes empresas, cada uma a seu modo, será possível estar em contato com seus amigos, entreter-se, trabalhar, e até receber chamadas simultaneamente. Tudo isso mediado pelos encantos das redes sociais, onde somos mobilizados o tempo todo a mensurar nossa popularidade, competindo por números de amigos.
Mais desconcertante do que essa abordagem quantitativa da sociabilidade e das relações afetivas, é pensar em como essas identidades se constroem. Com perfis baseados em listas de livros, filmes, músicas e produtos, as pessoas passam a ter sua personalidade ancorada naquilo que consomem e as identidades passam a ser identidades corporativas. Além disso, e acentuando o fenômeno do processo de identidade corporativa, qualquer um pode tornar-se “amigo” da Coca-cola, de bancos e empresas automobilísticas.[xi] Para completar, e acirrar o contexto de brandificação do cotidiano, as ações de comunicação passam a expressar o recurso (melhor, a marca do produto) utilizado para a publicação das mensagens – “enviado via Facebook para I-phone”, “enviado pelo meu aparelho BlackBerry da Claro” etc. Em síntese, se antigamente você dizia com quem andava e podia-se dizer quem você era, hoje é a marca do celular que você usou e da sua operadora que dizem por onde você andou.
A batalha pela conquista de subjetividades não se equaciona apenas com recursos de linguagem. É acompanhada por novas e intrigantes “ciências” como o neuromarketing, que objetiva descobrir onde fica e como funciona o botão de compras de nosso cérebro, ou seja, a nossa buyology[xii], e pela conformação a modelos e regras de conduta, procurando apropriar-se das dinâmicas nômades das redes para sedentarizá-las.
Operando como os aparelhos de captura em relação às máquinas de guerra de que nos falam Deleuze e Guattari em Mil Platôs, as táticas de estriamento dos territórios lisos das redes se atualizam no contexto da cultura da mobilidade e são um ponto de partida interessante para pensar as ambivalências do potencial crítico e criativo das microtelas urbanas. É praticamente impossível falar em projetos criativos na área sem esbarrar em uma logomarca. O que é feito para rodar no Android, sistema operacional para celulares desenvolvido pelo Google, para assinantes da T-Mobile, p. ex., não funcionará no sistema Symbian (utilizado pela Nokia) de assinantes dessa mesma operadora. Em casos extremos, um aparelho pode inclusive ser exclusivo de uma única operadora, como é o caso do I-Phone, que é exclusivo para assinantes da AT&T nos EUA.
A tendência é que essa situação não só continue como se torne dominante. O número de celulares no mundo já é quatro vezes maior do que o de computadores pessoais e isso faz que o mercado de aplicativos para celulares se transforme no “canal ideal das empresas para atingir seus consumidores”. Essa tendência é acentuada por outra, a da comoditização das funções de voz e mensagem pelas operadoras, que “explica porque a indústria mobile passou a última década em busca do próximo ‘Killer App’”. [xiii]
Negar a importância de projetos para celular como o Layar[xiv] e o Wikitude[xv], que são navegadores em Realidade Aumentada no espaço urbano desenvolvidos para aparelhos da marca HTC com sistema operacional Android e para o I-Phone, o I-Phone em si, ou a política de desenvolvimento de aplicativos em sistema open source do Fórum Nokia[xvi], seria manifestar a síndrome da nostalgia pelo que nunca fomos.
Nenhuma tecnologia é neutra e a história das estéticas tecnológicas é, pelo menos desde o surgimento da fotografia, a primeira arte técnica segundo Vilém Flusser, um processo de criação dentro de cadeias industriais, em que nos tornamos amalgamados aos aparelhos e às suas regras internas, fazendo com que seja decisivo o enfrentamento das normas pré-definidas no seu programa. Nas palavras do autor:
No contexto da Internet, essa relação de tensão entre indústria de bens de consumo e criação foi não só maximizada como se transformou, na sua primeira década de existência, nos anos 1990, no seu horizonte artístico. Horizonte artístico esse que era essencialmente crítico e questionador com relação à ascenção da nova economia, por meio da ação de pseudo-empresas, como a eToy, que desencadeou a Toy War (1999) ao ser processada por uma empresa de jogos eletrônicos homônima, e de apropriação de domínios como a feita pelo grupo Yesmen, que registrou gatt.org para difundir contra-propaganda ao GATT (General Agreement on Trade and Tarifs, Acordo Geral de Comércio e Tarifas) da WTO (World Trade Oragnization, Organização Mundial do Comércio).[xviii]
No âmbito da cultura da mobilidade, a abertura para projetos desse tipo é muito menor, dado o atrelamento entre marcas de fabricantes e operadoras. Cada vez mais os serviços e produtos para dispositivos móveis estão não só relacionados com uma determinada marca e modelo de aparelho, como também aos acordos entre operadoras e os fabricantes dos aparelhos. Essa vertente tende a se acentuar, com o deslocamento do mercado de conteúdo para plataformas móveis do browser para as app-stores, como a I-Tunes da Apple ou a OVI da Nokia. Isso porque a reação imediata das principais operadoras, que tradicionalmente foram dominantes no mercado de tecnologias móveis, influenciando a própria fabricação de aparelhos, foi procurar alternativas para contrabalancear o sucesso das lojas de aplicativos das empresas fabricantes de telefones, construindo suas próprias lojas ou conjugando-se às das fabricantes.
Ainda não é claro qual modelo de negócios vingará. Se vingarão estratégias, como a da Vodafone, de disponibilizar aplicativos próprios, de bloquear aplicativos desenvolvidos por fabricantes de aparelhos, como pretende fazer a Verizon nos EUA, ou modelos como a da Telefonica que apostou numa alternativa multiplataformas em operações casadas de lançamento do Android com o HTC Dream na Espanha e do lançamento do I-phone em diferentes países na Europa e na América do Sul.[xix]
Pessoalmente, parece-me que o modelo da Telefonica deve vingar. Contudo, seja qual for a estratégia vencedora, e é bem possível que todas coexistam, o fato é que ela não descartará a questão essencial para qual chamamos a atenção aqui: a superposição de territórios proprietários e marcas no âmbito da cultura de rede na Era da Mobilidade. É a partir dessa superporsição e dos mecanismos de controle do imaginário, pela colonização de sensibilidades que põem em curso, que os processos de estratificação se impõem. Seu reconhecimento não implica a impossibilidade de desterritorializá-los, mas demanda exercícios de reprogramação da comunicação orientada para a mudança cultural, comprometidos com a vontade de reinventar o nomadismo nos territórios informacionais da globalização corporativa.
[i] Measuring the information society, Genebra, International Telecommunication Union, 2009, p. 3-4. Disponível em: http://www.itu.int/ITU D/ict/publications/idi/2009/material/IDI2009_w5.pdf, p. 5-6.
[ii] The Mobile Internet Report, Morgan Stanley, Nova York, Dezembro, 2009. Disponível em http://www.morganstanley.com/institutional/techresearch/mobile_internet_report_theme.html
[iii] Honan, Mathew, “I Am Here: One Man’s Experiment With the Location-Aware Lifestyle”, WIRED, 17.02, 19/01/2009,
http://www.wired.com/gadgets/wireless/magazine/17-02/lp_guineapig?currentPage=all
[iv] A expressão é de Jack Schofield, jornalista do Guardian, comentando a introdução do sistema de anúncios no Facebook.
[v] Rushkoff, Douglas, Life.Inc. – How the world became a corporation and how to take it back, Nova York, Random House, 2009, p. 119.
[vi] Reis, Abel, “Marcas e Mundos Virtuais” em Trópico, 07/05/2007. Disponível em: http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2860,1.shl
[vii] Lipovetsky, Gilles, O Império do efêmero – a moda e seu destino nas sociedades modernas, trad. Maria Luisa Machado, São Paulo, Companhia de Bolso, 2009, p. 217.
[viii] Bazzichelli, Tatiana, “A Reflexion on the activist strategies in the Web 2.0 era.
Towards a new Language criticism”, Vector b, número 22, janeiro de 2009. Disponível em http://virose.pt/vector/b_22/bazzichelli.html.
[ix] Sennett, Richard, La corrosión del carácter – Las consecuencias del trabajo en en el nuevo capitalismo, trad. Daniel Najmías, Barcelona, 9ª. ed., Anagrama, 2006
[x] Rushkoff, Douglas, op. cit., p. 199.
[xi] Idem, p. 204.
[xii] Beiguelman, Giselle, “brandscapes, buylogy e artvertsing (Espaços de fomento, produção e circulação da criação com novas mídias no Brasil)”, em Beiguelman, Giselle et. al., op. cit., p. 105- 109.
[xiii] Khana, Anuj. Market report – The future of mobile application storefronts, Wireless Expetise Ltd., Maidenhead, 2009, p. 7. Disponível em: http://www.wirelessexpertise.com/research.php
[xiv] http://layar.com/
[xv] http://www.wikitude.org/world_browser
[xvi] http://www.forum.nokia.com/
[xvii] Flüsser, Vilém, Filosofia da Caixa Preta, São Paulo, Hucitec, 1988, p. 16.
[xviii] Baumgärtel, Tilman, “Arte en la red y net.art”, em Romano, Gustavo, Net art 0.1 – Desmontajes, Badajoz, MEIAC, 2009, p. 10.
[xix] Khana, Anuj, op.cit., p. 22-23.