Cartografias Opacas: Território e Agenciamento nas Redes*

Giselle Beiguelman

A inegável popularização e a bem-vinda melhoria e barateamento dos programas e dispositivos tecnológicos, tem sido acompanhada não só de novas esferas de experimentação, mas também de novos equipamentos de domesticação e controle do imaginário coletivo por meio da comoditização de discursos e práticas hacktivistas.

slide 2 e 3

Trata-se de procedimentos que operam pela domesticação dos sentidos e pela conformação a modelos e regras de conduta, procurando apropriar-se das dinâmicas nômades das redes para sedentarizá-las, como os aparelhos de captura em relação às máquinas de guerra de que nos falam Deleuze e Guattari em Mil Platôs.

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Bom exemplo disso é o crescimento exponencial das redes sociais, indicativo de como são bem sucedidas as retóricas daquilo que venho chamando de “a era do capitalismo fofinho”. Um capitalismo em que tudo soa onomatopéico, feliz e redondinho, como os logos e os nomes das principais redes sociais da web 2.0.

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Elemento fundamental desse quadro cultural é a experiência da mobilidade. Afinal, o que impressiona no âmbito da experiência cultural da mobilidade é o seu atrelamento às esferas corporativas. É praticamente impossível falar em projetos criativos na área sem esbarrar em uma logomarca.

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O que é feito para rodar no Android, sistema operacional para celulares desenvolvido pelo Google, para assinantes da T-Mobile, p. ex., não funcionará no sistema Symbian (da Nokia) de assinantes dessa mesma operadora. Em casos extremos, um aparelho pode inclusive ser exclusivo de uma única operadora, como é o caso do I-Phone 3G, que é exclusivo para assinantes da ATT nos EUA.

Negar a importância de projetos para celular como o Layar e o Wikitude, que são navegadores em Realidade Aumentada no espaço urbano desenvolvidos para aparelhos da marca HTC com sistema operacional Android, o I-Phone em si, ou novas perspectivas corporativas, como a preocupação da Nokia com soluções ecológicas, seria manifestar a síndrome da nostalgia pelo que nunca fomos.

Nenhuma tecnologia é neutra e a história das estéticas tecnológicas é, pelo menos desde o surgimento da fotografia, a primeira arte pós-industrial segundo Vilém Flusser, um processo de criação dentro de cadeias industriais. No contexto da Internet, essa relação de tensão entre indústria de bens de consumo e criação foi não só maximizada como transformou-se, na sua primeira década de existência, no seu horizonte artístico. Horizonte artístico esse que era essencialmente crítico e questionador.

No âmbito da cultura da mobilidade, a abertura para projetos desse tipo é muito menor, dado o atrelamento entre marcas de fabricantes e operadoras. Cada vez mais os serviços e produtos para dispositivos móveis estão não só relacionados com uma determinada marca e modelo de aparelho, como também aos acordos entre operadoras e os fabricantes dos aparelhos.

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Nesse contexto, “produsadores”  , “fansumidores” e usadores críticos tornam-se os atores centrais dos processos que se desenvolvem nas redes. Nesta palestra, serão apresentadas as estratégias que configuram as linhas de força das ações desses grupos. Acredito que a investigação das zonas de tensão que emergem nos confrontos e acomodações entre eles permite-nos cartografar seus procedimentos de territorialização e agenciamento , tornando suas dinâmicas menos opacas.

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* Resumo da palestra de abertura do 4o arte.mov, BH, 11/11/2009