GISELLE BEIGUELMAN
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Memórias líquidas

Algumas reflexões. Inspiradas em nosso simpósio “Futuros Possíveis – Arte, Museus e Arquivos Digitais”

 www.fau.usp.br/digitalmemory

  1. Poucas palavras se tornaram tão corriqueiras quanto “memória”. A memória, que até recentemente se restringia aos campos de estudo da historiografia, da neurologia e da psicanálise, tornou-se um aspecto central da vida cotidiana.
  2. Afinal, hoje a memória é uma espécie de dado quantificável, uma medida e até um indicador de status social. Criou-se um fetiche da “memória” como “coisa”: — Quanta memória tem seu computador? — E sua câmera? — E seu celular? — Tudo isso?! — Só isso?…
  3. Memórias são compradas, transferidas, apagadas e perdidas. Paradoxalmente, seu uso excessivo no discurso corresponde a um vazio metodológico quando se trata dos produtos culturais criados com os diferentes meios relacionados a essas memórias: as mídias digitais.
  4. Como preservar a memória de dispositivos culturais que resistem à objetificação, que muitas vezes só existem contextualmente — como a net art — e cujo processamento inclui seu apagamento?
  5. Como lidar com memórias tão instáveis, que duram o mesmo que a vida útil dos equipamentos e cuja tipologia não corresponde aos modelos atuais de catalogação de acervos de museus e arquivos?
  6. Como é possível, hoje, não pensar na memória cultural como uma questão econômica e também como um serviço que deveria exigir algum tipo de código de ética? Afinal, as memórias pessoais são cada vez mais mediadas por corporações — que se apresentam como grandes repositórios de dados — por meio de serviços interrompidos assim que deixam de ser considerados um nicho de mercado interessante. [Lembrem-se do GeoCities…]
  7. Esse desaparecimento iminente talvez explique o tom escatológico dos comandos mais básicos dos programas de edição digital, que insistem em nos pedir para “Salvar” os arquivos em vez de simplesmente armazená-los.
  8. Para não sucumbir a uma hipótese catastrofista e ir além da pressão da descartabilidade do mercado e da economia da obsolescência programada, propomos uma reflexão sobre os novos sentidos da memória e das tecnologias de memorização. Isso inclui novas abordagens de arquivos informais emergentes como UbuWeb, AAAARG.org e as inúmeras coleções públicas e privadas de links, tão populares hoje. Além disso, a maneira como vivemos cada vez mais mediados por bancos de dados de todos os tipos e fenômenos contemporâneos como o WikiLeaks desdobram a discussão em um debate sobre a política da informação e o acesso público aos dados.
  9. Nosso objetivo é discutir novas estratégias e metodologias de preservação e colecionamento de arte e informação digitais, apresentar estudos de caso e programas relevantes nessa área e refletir sobre a emergência de estéticas, políticas e culturas dos bancos de dados. A discussão seguirá quatro eixos: “Novas memórias: arquivos do futuro”; “Entre passado e futuro: construindo o presente e novos arquivos”; “Colecionador underground”; e “Curadoria da informação e estética dos bancos de dados”.
  10. O primeiro eixo se dedica a novas abordagens da museologia, do arquivamento e do armazenamento voltadas aos procedimentos de preservação e colecionamento da cultura digital. O segundo apresenta e analisa experiências de digitalização de diferentes acervos não digitais, problemas de restauração de obras eletrônicas e novas ferramentas e programas de catalogação. O terceiro aborda novas formas pessoais, informais e underground de arquivamento. O último propõe refletir sobre questões emergentes relacionadas aos processos e às práticas de arquivamento.

 

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Futuros Possíveis: Arte, Museus e Arquivos Digitais

Coordenação

Giselle Beiguelman – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP), Brasil

Ana Gonçalves Magalhães – Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) / Grupo de Trabalho Arquivos de Museus e Pesquisa, Brasil

Cocoordenação

Gerfried Stocker – Ars Electronica, Áustria

Organização:

Giselle Beiguelman – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP), Brasil

Ana Gonçalves Magalhães – Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP) / Grupo de Trabalho Arquivos de Museus e Pesquisa, Brasil

Manuela Naveau – Ars Electronica, Áustria

Ana Paola Salviano de Souza (assistente)

www.fau.usp.br/digitalmemory

1º a 5 de outubro de 2012

FAU-USP

Cidade Universitária