GISELLE BEIGUELMAN
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Post-Internet Cities

Participei da conferência internacional Post-Internet Cities que aconteceu no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa, no dia 26 de maio.

O seminário propunha:

“Esta conferência busca promover uma reflexão crítica sobre como as tecnologias digitais afetam a conceituação e a vida das cidades. Como a arte e a arquitetura podem responder a essa condição incerta e instável?

Falar do presente e do futuro de nossas cidades significa, antes de tudo, discutir o que o espaço urbano significa para nós hoje. Além de trazer mudanças evidentes às nossas práticas cotidianas, as tecnologias da comunicação transformaram radicalmente o modo como as cidades são reconhecidas, apropriadas e (re)desenhadas. A globalização da internet e, mais recentemente, o fenômeno das redes sociais remodelaram o espaço urbano, dividindo-o em múltiplos territórios que coexistem e se entrelaçam, em uma crescente ambiguidade entre os domínios público e privado, entre o real e o virtual.

Em um cenário de constante hibridização e conectividade, as distâncias físicas se encurtaram, dando origem a cidades ubíquas e paralelas, mapeadas por sistemas interativos e colaborativos. Esse processo explica como os principais movimentos de protesto político da última década surgiram primeiro on-line e só depois ocuparam os lugares simbólicos de nossas cidades. Mas essas novas dinâmicas socioculturais estão colocando em questão o papel do ambiente público construído? Até que ponto a cidade deve ser entendida como uma sobreposição entre a realidade material e um imaginário coletivo reinventado nas redes sociais?”

Nesse contexto, apresentei o artigo Art, Public Space, and Informational Territories: Towards the Archinterface, que discute a emergência do espaço urbano como uma interface complexa. Essa interface redefine o sentido de lugar e reinventa os modos de ocupar o espaço público, apontando para novas esferas de criatividade e controle.

Segue o resumo.

Art, Public Space, and Informational Territories: Towards the Archinterface

Giselle Beiguelman

Este artigo aborda as cidades expandidas pelas redes e a emergência do espaço urbano como uma interface complexa. Essa interface redefine o sentido de lugar e reinventa as formas de ocupar o espaço público. A partir de agora, é preciso levar em conta a dimensão pública do espaço informacional e a mediação do big data como horizonte de criatividade, controle e vigilância. Por isso, nesta apresentação, é dada atenção especial a obras de arte, intervenções urbanas e projetos de design e arquitetura que ampliam a compreensão do espaço público ao se apropriarem de seu espectro informacional. Alguns exemplos são o WZ Hotel, do arquiteto Guto Requena, o projeto Bueiros Conectados, do designer Andrei Speridião (ambos de São Paulo, 2014), e Dronestream (2014), do artista de dados Josh Begley, entre outros. Esse tipo de projeto enfrenta o desafio de como usar e pensar as tecnologias digitais como territórios informacionais e parte da esfera pública. A partir de diferentes perspectivas, eles nos permitem elaborar modelos de cidade para além das utopias de cidades interativas dos anos 1990, apostando em cidadãos inteligentes, e não em cidades inteligentes. Não menos importante é todo um conjunto de obras artísticas dedicadas à estética da vigilância, que fazem uma leitura crítica do controle nas cidades digitais e serão analisadas aqui. Entre outras, podemos citar I Spy with my Machine Eye (2016), de Liam Young, Street Ghosts (2012), de Paolo Cirio, e Drone Shadow (2012), de James Bridle. De formas variadas, elas recusam a cidade convertida em uma cela sem paredes, vigiada eletronicamente e a distância, e propõem conceitos de cidades de inteligência distribuída, expandidas pelas redes digitais, e não apenas controladas por tecnologias corporativas. Em suma, o conjunto desses projetos nos permite discutir cidades participativas, em vez de cidades interativas e simples aplicações baseadas em sistemas de ação e reação imediata. Nesse contexto, ampliamos a noção de cidade como interface: ela se torna uma “arquinterface” (arqui, do latim: superior, anterior, ultra; + interface), uma nova forma de espaço público que considera seus territórios informacionais como constitutivos da esfera pública.

Palavras-chave:

Arte pública digital, estética da vigilância, arquinterface, espaço público, territórios informacionais, big data, cidades inteligentes