Hoje faço minha conferência no Talent Campus Buenos Aires. Discutirei o estatuto da imagem contemporânea, pensada e apropriada pelas e nas redes.

Acredito que todo um outro paradigma de consumo e produção está se montando a partir das imagens on-line, evidenciando que as imagens deixaram de ser planos emolduráveis e tornaram-se os dispositivos mais importantes da contemporaneidade. Não seria exagero dizer que os celulares são hoje uma espécie de terceiro olho na palma da mão, canibalizando o direito de acesso de projeção do sujeito na tela, subvertendo não só os modos de fazer (enquadrar, editar, sonorizar), mas também os modos de olhar

Abro com Pacific (2009), de Marcelo Pedroso e sigo em frente.

O resumo segue abaixo:

Já se tornou senso comum dizer que vivemos em um mundo de imagens. Nenhuma novidade aí. Fala-se, discute-se e celebra-se o tema com recorrência desde os anos 1960. Mas a situação com que nos defrontamos hoje é inédita, sua escala não tem precedentes. Quando se afere o que se passa nas redes sociais, os números são capazes de convencer o mais cético e tecnofóbico dos analistas.

Em um mês o YouTube recebe mais vídeos do que as três principais emissoras de tevê dos EUA produziram em 60 anos. E esse é apenas um entre muitos dados impressionantes. Despejadas aos quaquilhões de bytes por segundo na internet, as imagens do século 21 tornam-se também espaços de sociabilidade, por onde outros regimes estéticos, que não são os das escolas de cinema e de artes, fluem e se impõem, especialmente no YouTube, rompendo cânones de classe, gênero e mercado.

Nunca foram colocadas tantas imagens em circulação e nunca as imagens foram tão decisivas no nosso processo de operação do cotidiano. Seu estatuto, digital e em rede, agencia e participa de transformações profundas nas narrativas e nas estéticas das time based arts.

Todo um outro paradigma de consumo e produção está se montando a partir das imagens on-line, evidenciando que as imagens deixaram de ser planos emolduráveis e tornaram-se os dispositivos mais importantes da contemporaneidade.

A produção audiovisual hoje transcende as noções tradicionais de imagem que nos permitiam perceber com clareza os limites entre a fotografia, o vídeo e o cinema. Não só programas de edição de vídeo permitem-nos produzir stills, como fazemos animações dentro de programas de edição de fotos. Mas isso é pouco. O que importa é que produzimos com os mesmos equipamentos diversos tipos de imagens, e isso não diz respeito apenas à cena amadora, catapultada por celulares e pequenas câmeras multifuncionais. A cena repete-se no nível profissional.

Essas transformações, no porte e no perfil das câmeras, são importantes porque não são mudanças apenas técnicas. Afetam toda a cadeia de produção de imagens, aumentando sensivelmente nossa capacidade de capturar imagens. Não seria exagero dizer que a miniaturização das câmeras tem nos colocado diante da emergência de um terceiro olho na palma da mão.

Mais do que isso, as imagens tornam-se táteis, reativas aos nossos gestos, temperatura e presença e participam de uma nova linhagem do design. Wiis, Ipads, Xboxs e toda uma gama de novas telas são exemplos quase autoexplicativos dessa linhagem de produção. Tudo indica que adentramos a época dos equipamentos de exercícios de sinestesia para as massas, em que as coisas parecem ser feitas para explorar a combinação de sentidos, como a visão e o tato, e converter as imagens que nos rodeiam, antes meras superfícies clicáveis, em interfaces com as quais nos relacionamos e dentro das quais passamos também a existir, em  situações cada vez mais interconectadas e mediadas.

Esse processo implica uma mudança sem precedentes na história das imagens técnicas: a revolução do além-tela já começou. Ela é feita a partir de novos dispositivos de projeção, câmeras, e novos espaços e recursos de fruição. Canibaliza o direito de acesso de projeção do sujeito na tela, subvertendo não só os modos de fazer (enquadrar, editar, sonorizar), mas também os modos de olhar.

Encerro com Vc Não Está Aqui (You Are Not Here, 2012), de Giselle Beiguelman e Fernando Velázquez

urnothere – interactive installation by giselle beiguelman & fernando velázquez from Giselle Beiguelman on Vimeo.