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Estranho estar em regime de férias forçadas.
É quase como estar de férias não-planejadas, mas não é.

As pendências de trabalho que não se vão, o fuso confunso que me brinda com mensagens de texto às 2 horas da manhã daqui, pessoas que me ligam às 00h00, gente que me maila com urgências às 18h00 daí, esquecendo que para mim são 23h00, podem ser considerados detalhes, side effects, fogo-amigo, whatever.

Já conferir sites dos aeroportos e das companhias aéreas, várias vezes ao dia, mesmo aqueles que não tem nenhuma relação com a sua viagem, dá um toque mais peculiar à temporada, mas ainda não diria que são os aspectos mais relevantes.

O que diferencia mesmo férias forçadas de férias não-planejadas é o buzz.

E o buzz está no dono da lojinha que mal fala inglês e não dá mais aquela tradicional resposta enfática “Oh, Brazil!!!”, mas já te interpela em suspensão: E você sabe quando irá para casa…? (mais reticências)
Está nos alunos e colegas da PUC que me perguntam: “Teoricamente”, quando você volta?

Está entre nós: o bando do Volcano Artist Residency Program, fundado hoje e representado por Eduardo Kac (Chicago), Bronac Ferran (Londres), Isaac Mao (Shangai), Chris Bregler (Nova York), Charlye Archibeque und Nicoll (Los Angeles), Pamela Z (São Francisco), Alain Thibault (Montreal) e eu, Giselle Beiguelman, (São Paulo).

Estamos em condições privilegiadas, sem dúvida. Depois de dias de trabalho intenso no júri do ars eslectronica, tendo a possibilidade de desfrutar a pertubadora cidade de Linz, na Áustria, resguardados pelo apoio — carinhoso, eficiente e material — do templo da cultura digital, o Ars Electronica Center, às margens plácidas do Danúbio.

Linz é pertubadora por vários motivos. Não só porque Hitler cresceu aqui, nem só porque  sua usina de aço, que hoje é a mais moderna da Europa, a voestalpine, foi propriedade do Hermann Göring, o segundo homem da hierarquia nazista, de 1938 a 1945. Mas porque usa toda essa força para se projetar como cidade do futuro. E nisso, as instituições culturais, como o OK Center for Contemporary Art e o Lentos Art Museum Linz e especialmente o Ars Electronica Center jogam um papel fundamental.

Cabe a elas, majoritariamente mantidas com recursos públicos, fazer a aposta no redirecionamento de sua vocação. Sobre isso ( e mais a articulação aço, vidro, complexo de inferioridade frente ao passado de Viena e Salzburg e minha visita à usina)  ainda vou escrever.

Mas hoje é dia de Volcano Artist Residency Program.

É que ele dá uma mediada do nosso estado de espírito. Rimos muito, fofocamos demais, temos 50 mil idéias por segundo e principalmente nos damos conta de como as diferenças culturais ainda são relevantes. Hoje tentei convencer a Pamela a não trabalhar amanhã e ir para Viena conosco, com a velha regra do “Não faça hoje o que pode ser feito amanhã”. Afinal, não estamos em condições-normais pi-pi-pi etc. Acho que foi forte. Mas ela considerou…

Contudo, o choque cultural maior, óbvio, é o vulcão impronunciável. Falamos em globalização, discutimos o futuro, pensamos a cultura de rede e, de repente, não só entramos no curto-circuito natureza-técnica, mas percebemos o centro de gravidade do mundo mudar, deslocar-se para a Islândia.

E isso nos obriga a pensar que sequer tínhamos consciência que esse lugar existia, que de lá poderia emergir uma onda planetária que impôs suas regras de forma absoluta e sem concessões. Os comentários que se seguiram ao meu primeiro post sobre a imobilidade vulcânica sublinham e dão complexidade ao que afirmo.

Nessa situação, as férias não-planejadas viram forçadas.

E é melhor relaxar e aproveitar o momento de Volcanic Artis Residency Program em ritmo de volcation.