Na mesma semana em  que  Andrew Keene veio ao Brasil lançar seu  “O Culto do Amador“, livro que discute como a web 2.0 vem destruindo a cultura e os valores ocidentais, a inteligência distribuída e coletiva mostrou que é ela, e não a “burrice artificial”, o fundamento da Cultura Digital em Rede.

Afinal foram as práticas e os espaços de ação da Cultura de Rede que mobilizaram mais de 30 mil pessoas a assinar uma petição pela reabilitação da memória de Alan Turing e que levaram o Primeiro Ministro Britânico a pedir publicamente desculpas, em nome do governo, pelo tratamento desumano e preconceituoso imposto a Turing.

Matemático, Turing é considerado o pai da computação e da inteligência artificial. A dimensão política de suas pesquisas é difícil de mensurar. Turing decifrou o código da máquina de criptografia Enigma, que a Alemanha nazista usava para mandar mensagens militares cifradas durante a guerra. Isso permitiu, como foi bem lembrado em artigo recente da Folha, que o Reino Unido interceptasse as mensagens, localizasse os submarinos alemães, atacasse-os e revertesse o curso da guerra.

Mas Turing era homossexual declarado e por esse “crime” foi afastado de seu trabalho, humilhado publicamente e condenado em 1952 a submeter-se a um tratamento hormonal com estrógenos que deformou seu corpo e comprometeu sua saúde. Em 1954, suicidou-se.

É difícil discordar de Keene sobre a superficialidade e quantidade de bobagens que é despejado na Internet diariamente, mas é um tanto quanto determinista atribuir aos recursos da web 2.0 “a culpa”  por esse processo. Os canais apenas recebem o lixo que é produzido fora da Internet e para lá orientado.

Portanto, o problema continua sendo pensar estratégias de fomento ao uso criativo e crítico das mídias e das redes sociais e não maneiras de relativizar sua predominância.

É aí que reside a importância do caso da petição pela reabilitação da honra e da memória de Turing. E a importância é muito maior do que a retratação oficial. Ela indica qualificação dos usos e dos recursos das redes e potenciais das smart mobs em ação. No caso, contra a imbecilidade do preconceito.

Sobre isso, transcrevo aqui a coluna da Vange Leonel publicada na Revista da Folha sobre a vida (ou melhor, o final da vida) do genial Alan Turing, pois o conteúdo da revista é fechado para assinantes da Folha ou do UOL.

Em tempo: na wikipedia, o verbete sobre Alan Turing já foi atualizado, incluindo o pedido de desculpas feito pelo Primeiro Ministro Gordon Brown  no dia 11.

Herói desencantado

por Vange Leonel (em: http://www1.folha.uol.com.br/revista/rf1309200919.htm)

“Ele deveria ter sido honrado como cavaleiro e festejado como salvador da pátria. Em vez disso, esse gênio excêntrico, gago e gentil foi arruinado por um ‘crime’, cometido entre quatro paredes, que não fez mal a ninguém.”

A frase é do biólogo Richard Dawkins, que há poucas semanas subscreveu uma petição exigindo do governo inglês desculpas públicas pela condenação do matemático Alan Turing. O crime (entre aspas) cometido por Turing, em 1952, foi o de “ato homossexual”. Como pena, o matemático foi submetido a um tratamento hormonal (uma castração química) que o deixou deprimido. Dois anos depois, aos 41, se suicidou comendo uma maçã envenenada.

O suicídio de princesa desencantada pôs fim a uma vida de herói. Turing foi responsável por quebrar o código do Enigma, máquina usada pelos alemães para transmitir mensagens criptografadas durante a Segunda Guerra Mundial. Sem medo de exagero, o próprio Dawkins argumenta que Turing “contribuiu mais que Einsenhower ou Churchill para derrotar os nazistas”.

Mas não fez só isso. Turing hoje é considerado o inventor do computador e autor de estudos germinais sobre inteligência artificial. O cientista computacional John Graham-Cumming, autor da petição, diz que seu objetivo é simbólico: para que as pessoas saibam quem foi Turing, o quanto foi responsável pelo mundo como é hoje, informatizado, e como o preconceito pode ceifar mentes brilhantes.


Vange Leonel é cantora, escritora e escreve quinzenalmente nesta coluna.

vangeleonel@uol.com.br